A crítica literária pode trazer ao ensino de leitura e literatura no ensino fundamental e médio.

20/06/2010 13:52

A crítica literária pode trazer ao ensino de leitura e literatura no ensino fundamental e médio

 

APRESENTAÇÃO:   

 Este texto trata das contribuições que a crítica literária pode trazer ao ensino de leitura e literatura no ensino fundamental e médio. Defende-se a tese de que é a crítica literária que deve auxiliar o professor na tarefa de conduzir o aluno para a leitura em condições de interpretar o que lê e perceber o modo de organização dos diferentes textos.

 

Não é fácil constatar-se a dificuldade que os professores de Português enfrentam diante da prática pedagógica de leitura em sala de aula. Por uma série de fatores, inclusive e, lamentavelmente, pela pouca familiaridade de muitos deles com a prática da leitura, esta fica relegada a um plano secundário, funcionando tão somente como pretexto para o ensino da gramática normativa.

 

A escola para a cidadania de que precisamos não é escola que forme o gramático ou o escritor, mas é a que crie condições para que todos os alunos se tornem capazes de usar a língua para a produção de suas mensagens, com consciência de seu eu e de seus limites diante do próprio discurso e do outro, libertando-se, pela linguagem, das amarras da manipulação a que estão sujeitos nos entrechoques do jogo social. Ensinar a ler e a escrever é a tarefa mais importante da escola.

 

Saint-Beuve, o grande crítico literário que o mundo conheceu, afirmava que o crítico é que sabe ler e ensina os outros a ler. Saber ler significa ler com compreensão do que se disse e com percepção dos mecanismos que foram capazes de fazer o texto dizer o que quis dizer. Eis aí a tarefa básica do professor: ser o crítico de que fala Saint-Beuve, isto é, aquele que sabe como se produz e como se lê o texto em busca do que dizer e de como dizer. O trabalho com o texto e pelo texto que preconizo em sala de aula tem por objetivo levar o aluno a ter uma visão crítica da realidade com percepção dos conteúdos ideológicos destinados a mascarar a essência do real. Para que isso aconteça, o professor deverá ser, antes de tudo, um bom leitor, um leitor maduro que tenha bastante intimidade com os mais variados textos. Professor de ensino de leitura não é o que apenas consome ou frui o texto, mas é aquele que repensa o texto com respeito ao que ele diz e ao modo como ele consegue dizer aquilo que diz.

 

Frye (1973, p. 334) defende o principio de que “a crítica e não a literatura é que é diretamente ensinada e aprendida”. É difícil ensinar literatura sem o auxílio da crítica literária. Mas o que se constata é que o ensino de literatura está muito concentrado no estudo da periodização literária, nomes de autores, características das obras e não no contato direto do aluno com as obras produzidas. Isso significa dizer que o ensino de literatura é muito mais um ensino de história da literatura do que de leitura da literatura que se produziu e se continua produzindo no país.

 

O professor de Português que temos formado pelas nossas universidades e faculdades isoladas é bem mais um professor que se preocupa com o ensino gramatical, feito, quase sempre, ao arrepio da realidade lingüística, do que um professor voltado para a leitura e produção de texto. O ensino de literatura que ele ministra é muito mais um discurso sobre a literatura do que propriamente um ensino que coloque o aluno diante do texto. E o próprio manual didático que ele não só adota, como também abraça qual uma tábua de salvação, colabora para que o ensino da língua materna seja o que é.

 

O trabalho do professor está indissociavelmente ligado ao livro didático adotado. Pode-se mesmo afirmar, e isto eu confirmei na pesquisa que fiz para o meu doutorado, que o ensino de Português no primeiro e segundo graus tem sido, quase sempre, apenas o estudo integral de um manual didático. E se examinarmos os livros didáticos destinados ao ensino de 1º e 2º graus vamos verificar que todos eles seguem o mesmo esquema. De um trecho de uma obra, quase sempre os mesmo textos para todos os livros, tiram-se questões de interpretação, de vocabulário, exemplos de frases bem formadas que ilustrarão algum ponto de gramática e, ao final, uma proposta de redação. No caso do segundo grau, o que acontece de diferente é que o texto escolhido para encabeçar a unidade de estudos é de um autor representativo da escola literária que se pretende estudar, como pretexto para fornecer a biografia do autor, e a relação de obras e uma pretensa crítica literária sobre a obra dele, que de crítica mesmo pouco ou nada tem, senão que é apenas um apanágio da obra, sem qualquer problematização. Não é exagero que se diga que se tenta ensinar literatura sem texto na escola. Não é, na verdade, um ensino de literatura, é um ensino sobre literatura, da mesma forma como não há um ensino da língua materna, mas um ensino sobre a língua a predominar nas nossas escolas. Já que o livro didático hoje é quase indispensável na sala de aula, cabe ao professor saber como utilizá-lo, principalmente no que se refere aos textos.

 

Eu disse anteriormente que é muito difícil um ensino de literatura sem preocupação com a crítica literária. Ela poderá melhorar a capacidade de leitura do aluno, dando-lhe condições de julgamento mais criterioso e menos impressionista da obra. Embora não seja a crítica literária uma disciplina autônoma nos currículos da grande maioria dos cursos de Letras do país, ela se faz presente em todas as atividades de estudo da área de literatura, ou, conforme observação de Costa (1986, p. 121),

 

Como fonte de pesquisa para produção de obras, ou como fonte de trabalho que o aluno realiza sobre o texto lido na sala de aula ou fora dela. Os exercícios que a crítica proporciona ajudam o aluno a melhorar sua competência no desempenho de atividades com a leitura e expressão escrita e oral.

 

Entendo que a literatura, ao criar universos fictícios com base na realidade, muito mais do que um entretenimento é mais uma arte que pode ajudar o homem na busca de soluções de conflitos e contradições históricas reais.

 

Bathes diz, em Crítica e verdade (1970), que a crítica é um discurso que tem a intenção de dar um sentido todo próprio à obra e que, por isso, é diferente da leitura; manifestações do crítico. Lucas (1984) diz textualmente: “Sendo a literatura a consciência da sociedade, a crítica será a consciência da literatura”.

 

A crítica é, assim, um metatexto construído sobre o texto que se lê. Saber compreender uma leitura crítica do texto deve ser uma das habilidades de domínio do professor, para poder conduzir o aluno para uma incursão interrogativa pelo texto que lhe permita emitir juízos fundamentados sobre ele. Os juízos de valor proferidos pela crítica a uma obra literária colaboram para fixar o gosto do leitor, para eternizar ou fazer esquecer o texto. Quem lê um texto, de uma forma ou de outra, critica-o. O texto literário produz fantasia e realidade ao mesmo tempo. E é nesse espaço que acontece a nossa vida. O texto quer se realizar como leitura. Necessita do leitor para ser interrogado. O crítico tem de saber ler o texto como um diálogo de um eu com o outro. Ele efetua operações metalingüísticas, construindo um novo texto sobre o texto lido.

 

A atividade crítica é, assim, criativa e tem o objetivo de guiar o gosto do leitor pela obra.

 

Fábio Lucas (1984) diz também que “a crítica está ligada à escala de observações, pois é a escala de observações que gera o fenômeno. Cada vez que mudamos de escala de observações, encontramos fenômenos novos”.

 

Frye (1973, id. ibid.) escreve que o instrumental da crítica só pode e deve partir da própria literatura. O crítico tem de ser, primeiramente, um eficiente leitor da literatura para dela poder extrair, por indução, um corpus amplo o bastante para lhe poder fornecer as leis do seu conhecimento. Ela passa, dessa forma, a ter autonomia de ciência.

 

A função da crítica literária é procurar a melhor leitura para a obra e, conseqüentemente, para melhor entendimento do mundo. A leitura crítica não se concentra apenas na busca prazerosa da função textual. Sua função é analítica, de busca da autonomia do texto, conforme ensina Northrop Frye.

 

Na sala de aula, a crítica literária deve ser uma atividade a serviço da melhoria da capacidade de leitura do aluno. É papel da escola ensinar o aluno a ler. Ler para aprender a se situar no mundo, ler para aprender a perceber os conteúdos ideológicos dos discursos com os quais se defronta, ler para encontra-se consigo mesmo pela descoberta do outro.

 

Se a escola tem como propósito formar o cidadão que tenha meios de expressão adequados para bem se relacionar no jogo social, ela deve valer-se da leitura, por meio de uma metodologia bem fundamentada e bem conduzida.

 

Não é isso, entretanto, o que se tem observado. Na maioria dos cursos de Letras tem-se praticado muito mais um discurso sobre a literatura do que um exercício crítico de leitura de textos. Lêem-se muito mais textos críticos sobre a literatura do que os textos literários propriamente. Não se forma o espírito crítico do futuro professor pelo domínio de instrumentos necessários à crítica, muito menos à criação literária. O resultado é que na sala de aula, de 1º e 2º graus, o professor não se aventura, por conta própria, a fazer uma leitura pessoal de textos sem se valer de outros textos críticos já escritos sobre as obras em causa. É bem por isso que a narrativa contemporânea está ausente em salas de aula de todos os graus de ensino. Quando muito, o estudo da literatura na escola brasileira chega à chamada geração de 1945. É só examinar os livros didáticos destinados ao ensino de literatura para se verificar a verdade dessa afirmação. A literatura brasileira produzida em nossos dias não está nas salas de aula de 1º e 2º graus, nem na universidade.

 

Os exercícios de leitura de romances quando feitos, têm servido apenas para afastar o aluno do prazer e da necessidade da leitura para a vida, principalmente porque se destinam à atribuição de notas pelo professor. Eles funcionam como outras modalidades de prova mensal ou bimestral. Para falar ou escrever sobre a leitura feita, o aluno é obrigado a ler o que já se escreveu sobre ela e pouco interessa ao professor descobrir o que ele conseguiu perceber de intenção de significação do texto, por conta própria.

 

O que deve interessar na prática de leitura no ensino é o ato concreto de leitura, a incursão pelo texto, a leitura e a releitura do texto que permitam transformar a leitura num ato autêntico de instauração de significados, conforme o que apregoa Lajolo (1986).

 

A escola brasileira preocupa-se em demasia com quantidade e não com qualidade, em todos os seus aspectos de funcionamento e organicidade, desde a prescrição de dias letivos passando pela organização curricular e, até no que nos interessa neste trabalho, no ensino de leitura e literatura. Preocupa-se muito com a quantidade de livros que os alunos devem ler, pela seqüência inteira das escolas literárias, abrangendo autores representativos e obras. As universidades, por intermédio das famigeradas listas de livros que os alunos devem ler obrigatoriamente para se submeterem às provas dos concursos vestibulares, só reforçam essa preocupação inútil e deletéria para a fixação do gosto do aluno pela leitura, mesmo após o período de escolarização. O estudante brasileiro que levar a sério a exigência de nossas universidades e conseguir ler, num só ano letivo, todas as obras sugeridas pela comissão de vestibular acabará tomando uma ojeriza tão grande pela literatura que nunca mais lerá espontaneamente uma obra sequer. Não adiante tentar justificar a exigência da lista de livros para os vestibulares, apontando-a como roteiro para o ensino de literatura no segundo grau, quando se sabe que é impossível que isso aconteça, lá que o curso do segundo grau não pode ser destinado a satisfazer os critérios de uma ou duas universidades, e o sacrificado estudante brasileiro que pretende ingressar numa universidade pública concentra toda sua preocupação com vestibular somente na última série do segundo grau. A maioria dos livros pedidos nas universidades nos concursos vestibulares não são lidos normalmente pelos alunos no ensino médio.

 

Cândido (1986: 51) diz: “Ler infatigavelmente é a regra de ouro do analista, como sempre preconizou a velha explication de texte dos franceses”.

 

Também eu entendo que a preocupação do professor em sala de aula deva ser essa. Não interessa que os alunos leiam dezenas de livros por ano. Interessa, isto sim, que, mesmo as poucas leituras que fizerem, sejam bem feitas, permitindo-lhes conhecer um pouco mais de si mesmo, da humanidade e do mundo em que vivem pela leitura que fazem. Uma leitura paciente, tranqüila, bem conduzida, de poucas obras, que seja ao mesmo tempo fruição e reflexão, questionamento e descoberta, vale mais do que a leitura de grande quantidade de livros, feita apenas para o cumprimento de uma tarefa didática. Não que eu imagine que a leitura na escola deva visar à formação do crítico, mas que seja buscada a quantidade de leitura, para se perceber que ela pode melhorar o ato de viver de cada um.

 

É importante também que se tire do ensino de literatura a obrigação maçante de memorização de toda a cronologia de escolas literárias desde o quinhentismo até a geração modernista de 1922. Literatura é leitura e não memorização de datas, de nomes de autores e relação de suas obras. Ler e discutir sobre o que se leu, ler sobre o que se escreveu a respeito da obra lida para confrontar descobertas deve ser o caminho para um ensino produtivo de literatura. O fragmento de texto lido em sala de aula deve conduzir à leitura do texto integral da obra.

 

Como conclusão deste trabalho, apresento um exercício que elaborei como base na leitura do romance A barca dos homens, de Autran Dourado. Depois de ler infatigavelmente o texto, como aconselha Antônio Cândido, acabei por penetrar de tal modo na composição da obra que consegui assimilar o estilo do autor, à semelhança dos ensinamentos dos manuais franceses de Antoine Albalat e apropriei-me do texto, em condições de fazer uma organização similar e criativa. Esse exercício apenas comprova o que é possível fazer com a leitura e releitura de uma obra. Não sirva ele para se apregoar a imitação sem propósito de uma obra lida. A validade deste exercício crítico, criativo e de aproximação do estilo do autor tanto mais de confirmará quanto mais de conectar com a leitura da obra. Convido o leitor a ler o romance original de Autran Dourado e, se tempo lhe sobrar, a examinar este texto meu.

 

Imaginem-se as seguintes questões a respeito do romance A barca dos homens:

 

1ª – Caracterize as reações do personagem Fortunato, justificando-se com episódios do livro.

 

2ª – Determine a mensagem, justificando-a com a descrição das cenas mais importantes.

 

3ª – Imagine, nas últimas cenas, um final diferente.

 

4ª – Faça um comentário sobre a obra.

 

Sem qualquer consulta ao livro, após lê-lo e relê-lo, elaborei as seguintes respostas:

 

1ª – Era hora de Tonho voltar, Não, Tonho, não. Tonho devia estar escornado. Tonho largou o mar e a Madalena. Agora, só bebia. O Tonho tão forte do mar. Madalena se acabando na areia. Um dia o Tonho sara e me chama pro mar. Tirar água da Madalena. Tonho remando firme. Acocorado no jardim, Fortunato olhava a aranha. Precisva de outra, pra luta. Ali um buraco. Enfiar um capim, a aranha grudar. É só puxar. Tonho é que podia voltar. Ele ia gostar. Puxou o capim. A outra é muito maior. Grandona e mole. Começou a ter pena da menor. A minha aranha. Ela tem de vencer. A calça preta da Dona Maria. Fundo lavado de mijo. Cheirinho bom. Branco é que é bom. Tudo limpinho. Negro é sujo. Privada no fundo da horta. De branco, é de louça. Dona Maria, na janela. Ela ia ver minha aranha ganhar. O sol quente lá no pasto. Almerinda deve ter sede. Carrapato no lombo. Só Almerinda era dele agora. Tonho só bebe. A aranha pequena açulada com o ramo de capim avançou pra grande. A grande recuou e contra atacou. Uma pata no ar. É da grande. O rolo preto no chão. Fortunato mordia os dedos de contentamento. A minha aranha vai ganhar. Tonho ia gostar da minha aranha. A grande não tem mais força. Não anda mais. Branco é que é bom da gente ser. Não vê o Dirceu, tem de tudo. Uma caixinha pra guardar minha aranha pro Tonho ver. Ela é forte. Venceu a grandona. Doma Maria já saiu da janela. Deve ter ido pra praia. A janela do quarto aberta. Os meninos e a mãe Luzia devem estar no cemitério. Pular a janela do quarto.

 

Fortunato se lambuzava nos cremes de Maria, nas coisas de Maria. Olhava-se no espelho encantado. Gente branca é que é bom. Negro é sujo. As calças de renda de Maria. Esfregava no nariz. Cheirinho gostoso de mijo. Tudo limpinho. Mijá agachado é melhor. Escondido na moita. Só Almerinda pra ver. Não acho a caixinha. Tonho devia ter caixinha pra aranha. Godofredo pode chegar agora. Ele adivinha tudo.

 

Fortunato cresceu só no corpo. A mente sempre baralhada. Os olhos assustados. Maria tentou ensiná-lo a ler. Comprou até livros de psicologia para entender a alma do Fortunato. Meu Deus, porque nasce gente assim.

 

Luzia falava, falava. Ele só olhava assustado. Não entendia nada. Do Tonho eu gosto.

 

Meu filho é assim, mas é bom. Deve de já ter trinta anos. Dr. Alberto queria que eu me casasse. A barriga já grande. Luzia nem piou. Nada, Dr. Alberto, o pai é um porquera, não merece casamento. Fortunato crescera sem pai. O meu paizinho, só eu é que sei, é o Tonho. Nem ele sabe.

 

O filho cresceu daquele jeito. Nunca entendeu nada. Só o mar. O mar ele entendia.

 

Godofredo viu de relance: a janela do quarto aberta. A gaveta remexida. Fortunato saltando a janela. O revólver sumido. Fortunato gritou. Fortunato sumiu no jardim.

 

2ª – A noite sobre a terra. Noite escura e pesada. E eu vou relatando essa perigosa viagem da Barca dos Homens para maior alargamento do Império e aumento da fé. Relato minucioso como deve ser uma crônica sobre os perigos da vida na barca dos homens.

 

Todos os dias crucificamos alguém. Frei Miguel pensava no sermão de Domingo. Eles não iam entender. Cada um que é crucificado, a humanidade de sacrifica e se redime. Morte. Redenção. Agonia.

 

Claro e escuro. Penetrar na escuridão e achar a luz. Apostasia. Deus não existe mesmo. Os homens e morrem. Tem de ser assim. Um novo dia há de nascer.

 

Lá fora tudo branco, como uma planta que nasce verdinha.

 

Depois da noite de agonia tudo calmo outra vez.

 

Quer dizer que agora cada um pro seu rumo?

 

3ª – O paizinho Tonho tinha de chegar. Ele sabia da grota. Só ele e Tonho sabiam. A perna doía muito.

 

Tonho remava com força até às pedras. Não era muito difícil chegar lá. Subiu os degraus com cuidado. Lá estava Fortunato acuado. Assustado. Pulou-lhe nos braços. Ria muito. Os olhos arregalados. Tonho puxou-o pra fora da grota. Escuridão imensa. As ondas batiam nas pedras. Agora, remavam com força. Precisavam chegar. De repente, os tiros. O remo no mar. Tonho jogado fora das ondas. Um baque fundo no ventre. O susto. Tonho gritou. O corpo encolhido no fundo de Madalena. Os olhos arregalados. A morte. Fortunato no mar. Morte, redenção. Agonia. Lá fora, um novo dia surgia. Tudo calmo na ilha.

 

4ª – A barca dos homens é um romance muito bem concebido e elaborado. É a linguagem em estado de poesia. Autran Dourado não conta aqui uma história como uma narrativa linear. O autor escolheu narrar pela ótica da liberdade da interiorização do personagem. É o diálogo interior, o solilóquio, o monólogo justificando a ação exterior do personagem. Este pensa, porém com pouca liberdade. Em todos os episódios a onipresença e onisciência do autor para não permitir a quebra da sintaxe.

 

Costuma-se dizer que o homem é o resultado do último livro que leu. A barca dos homens me impressionou bastante. “Viver é muito perigoso”, já escreveu Guimarães Rosa. O romance moderno de Autran Dourado me deixou, assim como deverá deixar todos os seus leitores, com a sensação do perigo. A vida por viver, a morte a espreitar. “Os homens necessitam de espelho para se verem”, é uma frase repetida na obra. O homem é muito só. Só Deus conhece completamente o risco do bordado. Os homens nada entendem. Somos jogados na barca da vida com as ondas em alto mar. O ancoradouro fica lá longe. Trevas, só depois a luz. Morte, redenção. Agonia.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

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Fonte:

Juscelino Pernambuco        Centro Universitário Claretiano      Semana do Livro-2006 -

 

 

 

 

 

 


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