ANÁLISE DO CONTO: “A CARTOMANTE” DE MACHADO DE ASSIS

20/06/2010 12:54

 

 ANÁLISE DO CONTO:

“A CARTOMANTE” DE MACHADO DE ASSIS

 

Por: Charles Quirino

 

A Cartomante é um conto de Machado de Assis, um dos maiores escritores da nossa literatura, foi publicado em 1884. Relata um caso de amor proibido, uma experiência conflitante e um final trágico dentro de uma sociedade recatada.

Nesse interessantíssimo conto, que muito me identifiquei, podemos observar fortemente os traços marcantes das obras machadianas, que se destacam pela profundidade psicológica que se submetem seus personagens. Dentro do enredo, que não segue nenhuma ordem dos fatos, o leitor é convidado a investigar, as razões, os porquês e as atitudes que fez com que “fulano” agisse dessa forma e não daquela. Nesse sentido, as inquietudes humanas são traços predominantes que se realçam.

Se olharmos pela “janela do tempo” esta obra nos remete a dois contextos diferentes, o do passado e do presente.  Do passado, porque na época da publicação da obra os valores morais eram vivos e rígidos “a luz” da ditadura militar; e do presente porque estes mesmos ideais ainda são aceitos por nossa sociedade. A verossimilhança encontrada em “A Cartomante” nos mostrará as oposições da vida comum: Amizade e inimizade, confiança e desconfiança, amor e traição, crença e descrença, o belo e o feio, a vida e a morte.

O conto “A Cartomante” certamente não teria o mesmo destaque literário sem não fosse pela preciosidade do estilo, o uso de algumas metáforas, a forte atuação dos personagens que atuam como anti-heróis, alguns argumentos de caráter filosófico, a temática, o enredo conflitante e a linguagem abordada pelo autor.

Para a análise do conto será levado a reflexão todos os cinco elementos da narrativa, todavia percebemos na leitura e releitura da obra que três pontos fundamentais se sobressaem para a compreensão da mesma; são eles: o enredo, as personagens e o sentido que tem o texto.

Faz-se aqui necessário ressaltar que todos os materiais ou conteúdos discutidos nas aulas de Teoria Literária II, as muitas horas de persistência, dedicação e estudo, assim como também as várias observações feitas pelos colegas do curso de Letras da UNEAL- Universidade Estadual de Alagoas, foram, sem dúvidas, importantes para desenvolver a análise.

Ao envolver-se com a obra, narrada em terceira pessoa, o leitor é levado a pensar e repensar nas situações apresentadas. Isso porque os “jogos de palavras” lançadas pelo narrador, que não é personagem, sempre é um convite ao envolvimento com a leitura. Nisso o pensamento dar lugar aos argumentos, não apenas pela situação que se encontra os personagens, mas principalmente pelo valor que tem a temática dentro de nosso contexto social.

O conto é composto em torno de quatro personagens: Camilo e Rita que são amantes e atuam como protagonistas e anti-herói, estes usam de “malícias” com relação à moral de Vilela.  O personagem Vilela age neste conto como antagonista, pois no desenrolar do enredo, suas ações são mais firmes ou éticas, todavia ao sofrer as conseqüências da traição, isso muda, e ele prefere tomar atitudes imorais ou inconcebíveis pelo leitor. E por fim, a Cartomante que também é uma personagem antagonista com relação ao trio amoroso ou a todos, considerando que suas “visões sobrenaturais” não passam de uma tremenda fofoca, com objetivos de ganhar fama e lucro em prol da desgraça alheia.

Quanto à caracterização todos os personagens são redondos, isto porque podemos facilmente observar uma variedade de aspectos psicológicos, ideológicos, morais, entre outros. Camilo em um momento mostrasse preso por sua paixão proibida por Rita, como também se preocupa com a amizade de anos com Vilela. Em todo tempo há mudanças de atitudes ou comportamentos dos personagens.  E o que fala da Cartomante? Bom, esta do início ao fim da história mostrasse misteriosa e de caráter duvidoso com relações aos demais personagens.

A personagem Rita é descrita já no princípio da obra com seus dotes de beleza “[...] a bela Rita”, com medo de perder seu namorado Camilo resolve em uma sexta-feira de novembro de 1869 procurar uma cartomante.

O tempo interno aqui é centrado no dia, mês e ano. Com relação a sexta-feira, esta é diferente de qualquer outro dia da semana. É conhecido em nossa atual sociedade, como o dia do azar ou coisa assim, e por isso o “ar” da sexta–feira aqui é sobrenatural, é sem igual, observamos a expressão usada pelo autor: “numa sexta-feira” e não em uma sexta-feira ou na sexta-feira.

Na vida real, a fé no sobrenatural muda de tempo em tempo. Aquilo que você é hoje dificilmente será amanhã. O autor descreve muito bem essa verdade quando apresenta o personagem Camilo. Observe que este no princípio do conto é descrito como um cético e irônico dos fatos dessa natureza, contudo ele nem sempre agiu assim. Nas linhas do texto encontramos: “[...] em criança, e depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices [...].” Isto que dizer; em outro tempo ele foi crente em suas afirmações, mas (...). Pois bem, retemos nossa maior atenção, não agora para este fato e sim para o final da crítica. Iremos concordar que nosso personagem ainda mudará de atitude.

Devemos aqui ressaltar não só para o enfoque psicológica do personagem dentro do enrede, mas principalmente o valor desse fragmento textual para a compreensão do desfecho final do conto. Sem essa observação certamente ficaríamos pedidos na conclusão do todo.

Um fato interessante é que o autor não usa uma seqüência cronológica dos acontecimentos. Os amantes já são apresentados ao leitor de maneira súbita, observe o tempo, mês de novembro, quase fim do ano. Machado de Assis, de uma forma única, retorna aos princípios usando de argumentos agradáveis ao leitor: “Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela[...]”. O espaço aqui, mesmo implícito, possivelmente seja a casa de Vilela. O tempo já não é o mesmo, e sim principio do ano de 1869. Concluímos isso pelo andamento dos fatos.

Observaremos agora para algumas contradições. O personagem Vilela é homem maduro, de boa reputação e é casado. Em quanto Camilo, é jovem, imaturo, de pouca posição social, que só a tem, graças a mãe. A esposa de Vilela era formosa, mas tinha uma desvantagem, era tonta. A mulher da época, como também em algumas sociedades do mundo contemporânea, valia ou vale mais pela beleza e não pela inteligente ou capacidade.  

A atenção é voltada para o encontro. Três amigos e um único dilema. Após uma vivência em comum algo deveria surgir. Rita nos parece o tipo de mulher calculista, daquela que fica imaginando o que não deve. Uma verdadeira sirigaita. Contudo, o narrador ressaltar mais vezes a sua beleza.. “Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa[...]mas principalmente era mulher e bonita”.  Sua feitura e esperteza parece-nos saltarem aos olhos. Camilo por ser um ingênuo, de 26 anos de idade, mostrasse uma “presa fácil as armadilhas da vida”. E o personagem Vilela, em meio a tudo isso confiava cegamente em seu amigo de infância.

A intimidade entre Rita e Camilo cresce dentro do espaço familiar.  A mulher investi pesado em sua paixão proibida e consegue bom êxito: “a convivência trouxe intimidade[...] um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração[...]”. Camilo agora envolvido psicologicamente tem que se adaptar a nova situação. O leitor nesse estante é convidado a imaginar os fatos e a usar de reflexões quanto às atitudes e conseqüências dos amantes. De certa forma, somos envolvidos no enredo, sentimos quase como os personagens, “as emoções no ar”. 

A ação do conto se desenvolve em idéias, de modos perceptíveis pelo leitor. A partir desse momento cada parte ganha encaixamento e os acontecimentos são mais marcantes. Encontramos nesse ponto uma metáfora: ”Rita, como uma serpente foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca”. O momento aqui é culminante, é trágico. Todavia, há o contentamento dos personagens: “pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro”.

As ações dos fatos se desenvolvem de maneira gradativa caminhando aos poucos para o clímax. “Camilo recebe uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pórfiro, e dizia que a aventura era sabida de todos.”.  O texto explicitamente não informa, mas acredito, pelo contexto do mesmo, que aqui há uma participação indireta da personagem dita como a cartomante. Aqui o nome dele não tem importância e sim as ações. Pois bem, o personagem Camilo já inquieto procura ser mais delicado em suas atitudes: “temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio”.

 Quando o personagem Camilo recebe o bilhete de Vilela, dizendo: “vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”, este a todo estante é levada a um estado psicológico muito grande, que é percebido e acompanhado pelo leitor. Os detalhes que se seguem são cada vez evidentes.

Encontramos nesse estante vários argumentos de valor psicológico ou filosófico. O personagem é levado a momentos de grandes tensões, dúvidas e inquietudes. “Imaginando, viu a porta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando a pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo”. Na esperança de encontrar uma resposta para seu problema, o tempo já não valia nada: “[...] era perto de uma hora da tarde [...] o tempo voava. O seu estado psicológico parece ter sido colocado a prova. “as palavras estavam decoradas, diante dos olhos”. O que fazer?.

 É agora que entra nosso personagem. Realmente podemos perceber que ele mudou de atitude com relação a sua fé. Pois bem, vamos aos fatos.

A cartomante que não representava nada para ele passa a ter um valor significante. É ela a grande esperança?  O autor faz aqui ilusões à crença. O Orgulho do personagem tornou-se tão pequeno, quase invisíveis diante da imagem da Cartomante. Por fim, pensa que sua salvação está nas palavras “poderosas da cartomante.

As ações se aceleram de forma mais dramática. O tempo é resumido. O espaço aqui ainda é o caminho à cartomante. Rumo à rua da Guarda Velha sentisse ansioso, e não ver a hora de chegar ao destino: “No fim do tilburi, ficava a casa da Cartomante”. A casa parece que lhe convidava a entrar. Outra figura de linguagem encontramos aqui: “A casa olhava para ele”. Pensou mais uma vez ser durão, incrédulo, mas não conseguiu. O sofrimento era maior. Precisava de um alivio à sua pobre alma.

  Decidi entrar, o espaço é relatado como misterioso, “A luz era pouca”. Meio atrapalhado encontra a cartomante, e as palavras que a mesma lhe entrega, soam com prazer a seus ouvidos: “[...] então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo[...]. Era o discurso que ele tanto almejava. A cartomante mais uma vez participa da ação de sua personagem.  

O leitor é levado à expectativa do desfecho do conto. O personagem Camilo ignora todos os fatos acontecidos. Sua mente agora é outra, o tempo do enredo, já é longo. O personagem ver um futuro próspero. Em suma seus pensamentos são todos positivos com relação a vida.

Na casa de Vilela o ar é pesado, deixando no leitor uma forte sensação de tensão. O tempo também já não é o de antes: “[...] apeou, empurrou-se a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, aporta abriu-se[...]. Toda a expectativa do conto não mais emocionante do que aqui. O leitor é preso em atenção. O momento é triunfante. Repare que até os degraus da escada são contados. Cada segundo vale ouro.

O personagem Vilela aparece e sua aparência já não é as de antes. Por fim a tragédia foi consumada. O silêncio parece tomar conta do ambiente, e o leitor é conduzido ao alivio e reflexão.  


Pensar é conhecer! Conhecer é viver!