“Um Apólogo” de Machado de Assis - Por: Charles Quirino

26/09/2010 15:56

“Um Apólogo” de Machado de Assis

  Por:Charles Quirino

 

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br

 Comentário:

 

Este trabalho “O Apólogo” de Machado de Assis ajuda-nos a desenvolver o senso crítico enquanto leitores. Ele é do gênero conto, a linguagem é bem simples e de fácil compreensão. O texto trata-se de uma alegoria, porque coisas inanimadas ganham vidas ou características humanas (antropomorfizados).

De primeira expressão somos “presos” por meio da famosa citação: “Era uma vez...”. Talvez por essas e outras características ele vem produz no leitor uma sensação prazerosa, gerando um maior interesse pelo texto.

Todavia, apesar de ser de uma leitura direta, e como já falei simples, é preciso muita atenção à compreensão da mesma. Há durante todo o enredo um fundo crítico que só é percebido pelo leitor na medida em que acontece o desfecho final:

 

“Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!”

 

Trazendo para o mundo real percebo que são vários os ensinamentos que Machado de Assis nos ensina por meio do conto: respeito ao próximo, trabalho em equipe, valorização as coisas pequenas, simplicidade, humildade, agradecimento, exploração trabalhista no mundo capitalista que vivemos etc. Em especial percebe-se de fundo um ensinamento: se todas as pessoas trabalhassem em prol a um objetivo comum no final ( na grande festa) todos lucrariam.

Assim sendo, cada um teria sua oportunidade, seu lugar especial na realização do Todo. A festa não seria só para a “Linha ou...”, mas de todos. Defendendo assim esse ponto de vista e fazendo uma pequena comparação, lembro-me das teorias implantadas por Karl Max, fundador do sistema socialista.

Segundo esse conceito econômico a sociedade capitalista perde muito quando só os empresários ( “Novelos”) ganha a custa dos pequenos trabalhadores( “Agulhas”). A verdadeira organização econômica é aquela que visa à propriedade pública voltada ao coletivo. Pela igualdade de oportunidades todos ganham, todos participam dos lucros ( “festa”) e não só os bastados ricos. 

Como conclusão, Machado, critica o mundo burguês de sua época usando para isso uma sabedoria magnífica. É, a meu ver, uma mensagem antiga e nova ao mesmo tempo. Quando analisada para os nossos dias percebemos que essa realidade ainda persiste em muitas classes sociais. Os ricos ou os mais privilegiados estão a todo o momento se apropriando dos mais sofridos (pobres), apenas com o objetivo de tirar proveito dos mesmos para seu próprio proveito.

No mundo, muitas são as pessoas que por melhor posição ou status social, acabam humilham as outras de menor escala. Já não há respeito e valorização às classes trabalhistas. Uns acabam ganhando os privilégios sociais.

 

Autor: Charles Quirino

 

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